A história de Deus com os homens é, desde o princípio, uma história de luz: «Deus disse: “Exista a luz”. E a luz existiu. Deus viu que a luz era boa» (Gn 1, 3-4). Porém, quando essa mesma luz, ainda que eterna e sublime, não alcança todos os recantos da criação, as trevas manifestam-se. Não tanto como realidade, mas sobretudo como ausência: ausência dessa Luz que é Deus, capaz de trazer uma visão nova e iluminada a todas as coisas.
As aparências são fruto dessas trevas parciais, que tantas vezes toldam a nossa percepção e nos levam a assumir a realidade de acordo com uma visão deturpada. A proximidade em relação a Deus traz consigo uma possibilidade mudança: n’Ele, que é a Luz do mundo, a nossa visão pode tornar-se clara e verdadeira; sem Ele, porém, veremos apenas aquilo que é aparente.
Participar na luz exige uma decisão, porque a colaboração com as trevas não só é real, como possível. Muitas vezes habituamo-nos às sombras e tomamo-las por realidade. Como na alegoria da caverna de Platão, permanecemos, tantas vezes, na penumbra julgando ver, quando na verdade apenas contemplamos reflexos imperfeitos. Para sair da caverna é preciso aceitar, antes de mais, que talvez ainda nos encontremos dentro dela. Mas os lampejos de luz que vislumbramos ajudam-nos a reconhecer a nossa cegueira e a deixar que o Único que pode curar as nossas incapacidades de visão o faça efectivamente.
Na verdade, se não soubéssemos da nossa cegueira não teríamos pecado algum; mas, ao julgarmos ver, sendo cegos, o nosso pecado permanecerá. Só a luz que vem de Deus pode abrir verdadeiramente os nossos olhos para tudo sermos capazes de ver segundo a Sua visão.
Padre Miguel Rodrigues