A linguagem pode ser dura, mas é também incontornável. Podemos encontrar inúmeras justificações que, eventualmente, amenizem as palavras de Jesus; contudo, creio que dificilmente encontraremos alguma que não desvirtue o seu verdadeiro sentido.
O risco da perdição é um risco real. Não se trata apenas de uma estratégia de comunicação destinada a instigar o medo nos corações e, assim, melhor os controlar. Um deus concebido dessa forma seria bem pior do que muitos seres humanos, o que esvaziaria também a grandeza da Sua divindade e das perfeições que Lhe reconhecemos: a bondade, a magnanimidade e a perfeição. A grandeza de Deus manifesta-se também na perfeição da Sua justiça, revelada em Jesus Cristo como misericórdia, mas nunca como fraqueza ou condescendência.
Deus concederá sempre a cada um aquilo que mais favoreça a sua salvação, que deseja oferecer a todos; nunca, porém, a imporá contra a vontade obstinada de quem livremente a rejeita. Assim, o texto evangélico apresenta-nos uma possibilidade real: a rejeição de Deus e da salvação que gratuitamente nos oferece. Aqueles que a recusarem ficarão fora do Reino, não por vontade de Deus, mas pela sua própria escolha, ao colocarem-se deliberadamente à margem.
Por bondade, e na perfeição da Sua justiça, o Senhor respeitará sempre a liberdade que concedeu a cada uma das Suas criaturas. Paradoxalmente, é precisamente esse respeito absoluto pela nossa liberdade que constitui um dos maiores sinais do Seu Amor por nós.
Padre Miguel Rodrigues